HERMÍNIA
Hermínia chegou no cubículo enfiado na Mata Atlântica que chamava
de lar, ao mesmo tempo que seu celular tocou. Era o seu único
eletrodoméstico. Deixou a sua caça na entrada e atendeu, lambendo
os dedos da mãos, sujos de sangue. Foi informada da missão, e
conferiu os primeiros dados no aparelho. Mal daria tempo para saborear
a refeição.
Apurou os ouvidos. Passos na mata, na direção de sua casa. Sabia
que vinha sendo observada há semanas, por dois homens. Sabia
exatamente o que queriam, só não havia decidido como lidar com
eles. Matá-los seria a opção mais óbvia, mas era contra uma das
regras essenciais da Matilha. Poderia espancá-los, mas isso não
garantiria que voltariam, armados. Não que armas fossem uma garantia
contra Hermínia, mas tornavam as coisas, sem dúvida, mais difíceis.
A Matilha recomenda expressamente a discrição, mas na situação
atual, achou que um susto seria o ideal. Saiu pela pequena janela,
segundos antes dos dois homens entrarem pela porta.
Do lado de fora de sua casa, transformou-se completamente. Agora ela
era um lobisomem de dois metros de altura, os pelos castanho-claros
cobrindo todo o seu corpo. A transformação era rápida, e os
homens ainda estavam olhando para o cubículo vazio quando Hermínia
uivou pela primeira vez, com toda a força de seus pulmões
expandidos.
Os homens correram para a porta por onde haviam entrado. No chão,
pela primeira vez repararam em um cadáver peludo de alguma coisa. Um
macaco, provavelmente. Já estavam apavorados, quando Hermínia
começou a circular a sua residência, rosnando selvagemente. A
transformação embotava o seu raciocínio, e Hermínia era agora uma
fera que teve seu território invadido. Os homens teriam que correr,
se quisessem sobreviver.
Foi o que fizeram. O que não impediu o lobisomem de ainda
persegui-los pela mata fechada, por algumas dezenas de metros, até
desistir.
Voltou à forma humana. Ainda estava com seu vestido leve, no corpo.
Havia somente descosturado em alguns pontos, devido ao aumento de
tamanho. E estava suja. Caminhou alegremente até a sua casa, ouvindo
os sons da mata.
Na soleira de sua própria casa tirou o vestido e devorou o macaco
rapidamente. Entrou, tomou uma ducha – coisa que detestava –
colocou outra roupa, pegou o celular e saiu. Tinha uma missão.
Hospedou-se em uma estância de águas, próximo de onde teria que
verificar o que aconteceu. Uma reprodutora e seu criado não
respondiam a nenhuma das tentativas de contato da Matilha.
Ninguém atendia os telefones celulares, ou as chamadas de skipe.
Hermínia teria que saber se era somente insubordinação do grupo –
que ainda tinha um reprodutor enjaulado entre seus membros – ou se
realmente havia acontecido alguma coisa grave, como com a reprodutora
de Goiás, que havia enlouquecido e assassinado o seu criado e o
reprodutor, suicidando-se em seguida.
Tentou o contato por mais duas vezes por intermédio do celular e no
mesmo dia, pelo entardecer, foi para a propriedade da reprodutora em
questão.
Era um sítio pequeno e isolado, cercado pelos dois lados pelos
paredões de pedra típicos da região e atrás por uma reserva
natural. Um bom lugar para se viver, quando se é um lobisomem. Parou
o carro alugado pela Matilha na porteira e entrou. Caminhou pela
única alameda cheia de barro até o que parecia ser uma casa sede. A
porta estava aberta.
Dentro, a desorganização e falta de higiene típica dos
lobisomens, mas com um toque a mais; ninguém parecia ter estado ali nos últimos dois dias. Farejou por todo o lado e não sentia cheiro
de humanos em lugar nenhum. Era uma casa de lobos e somente deles.
Saiu pela cozinha, em um pomar, deixado em estado quase selvagem, na
direção de um pequeno galpão onde, provavelmente, estaria o
reprodutor. A porta estava aberta e já nos umbrais sentiu o cheiro
inconfundível de morte e sangue. Segundos depois estava olhando os
restos ensanguentados de do reprodutor. Ficou de
cócoras e pegou a cabeça decepada do animal. Um tiro à
queima-roupa havia arrebentado o seu olho direito e saído pela parte
de trás de sua cabeça dura. Ou seja, ele provavelmente estava morto
quando fora devorado, e talvez seja a única forma de devorar uma
animal daqueles. Olhou para o que restava do corpo. Trezentos e
cinquenta quilos de músculos cobertos por uma fina pelagem
amarelada. Levantou-se e continuou sua busca. Saindo do galpão,
olhou por um segundo para a última edificação do lugar. Deveria
funcionar como uma espécie de silo, antes de ser comprada pela
Matilha. Andou dois metros e descobriu uma velha picareta. Agachou-se
novamente e viu fios de cabelo, sangue e miolos nela. Andou na
direção do silo e, chegando lá, abriu a porta de metal do lugar.
Por mais que fosse ela também um lobisomem, e ainda por cima
preparada para agir rapidamente em situações limites, não
conseguiu conter o horror da cena que via. Um grande lobisomem,
provavelmente um criado, estava de cócoras devorando os restos de
uma mulher que Hermínia sabia ser a loba reprodutora.
O lobisomem virou-se para ela e atacou, imediatamente. Mas a jovem era rápida e conseguiu sair do silo, fechando a porta de metal às
suas costas. A besta jogou-se com força contra a porta,
derrubando-a, e jogando Hermínia longe. A moça rolou sobre o
próprio corpo e em um átimo estava de pé, corpo curvado, os dentes
de lobo e garras a mostra. O lobisomem urrou para ela e voltou para o
silo, para terminar sua refeição macabra.
Hermínia, semi-transformada, foi andando de costas, olhando para a
entrada escura do silo, até conseguir chegar no meio do pomar,
quando virou-se sobre seus calcanhares e disparou, na direção de
seu carro.
Voltou para a pequena estância com um nó na garganta. O criado
havia assassinado sua dona, a reprodutora, provavelmente com aquela
picareta, enquanto os dois ainda estavam na forma humana. E depois
dever ter usado um rifle para estourar a cabeça do reprodutor. Ou
seja, um assassinato duplo tipicamente humano, perpetrado na forma
humana, já que os lobisomens não conseguem usar ferramentas quando
estão transformados, ainda mais uma ferramenta complexa como uma
arma de fogo.
Não telefonou para a Matilha. Se ligasse, diriam para tentar
capturar aquele criado vivo, para ser entregue à Coisa.
A Coisa era o ser que ficava em uma caverna, em torno da qual se
constituiu a Matilha. Não sabia que forma tinha a Coisa, e achava que
nenhum lobo a tenha visto. Ou, pelo menos, nenhum lobo que a tenha
visto sobreviveu para contar como a Coisa era, de fato. Só sabiam
que Ela ficava em sua gruta, e que se jogassem lobos insubordinados
na arena construída em volta dessa gruta, Ela daria cabo deles para
a Matilha.
Já a Matilha era muito mais fácil de descrever.
Começava com um prédio, lúgubre, monumental, construído com
cimento e aço, na região central do país. O prédio havia sido
erigido em volta à uma arena circular, que por sua vez era o único
acesso à Coisa. Nesse prédio o destino das lobas e lobos era
decidido pelas Lobas Signatárias. Essas Signatárias eram
Lobisomens fêmeas com mais de quinhentos anos – dizem que a
Matriarca teria mais de oitocentos – que comandavam essa estrutura
social, onde os machos eram ou castrados ou enfiados em jaulas para a
reprodução. A maior parte das lobas também não podia ter filhos,
como a própria Hermínia, mas tinham muito mais independência que
os machos castrados, quase sempre destinados a serviços internos de
logística ou a mera criadagem.
A Matilha sobrevivia, como instituição, graças à venda de sangue de lobo para milionários que pudessem pagar por uma
“contaminação”, como é chamada. Uma contaminação era a execução, cerimoniosa, de uma mordida de lobo em um humano. A ferida da mordida seria banhada com o sangue do próprio lobisomem autor da mordida, dando ao humano trinta anos a mais que seus pares, e gozando de saúde perfeita. Homens de cinquenta chegavam aos oitenta idênticos ao dia em que foram contaminados.
O dinheiro da contaminação era usado para sustentar a Matilha e manter a
sobrevivência dos lobos, cujo crescimento vegetativo era mínimo. As
reprodutoras eram raras, os reprodutores mais raros ainda, e nos
últimos anos, multiplicaram-se os casos de assassinato dentro da
Matilha. Lobos sendo lobos de lobos.
Hermínia fora criada pela Matilha, até atingir sua maturidade, aos
quatro anos, quando se tornou a bela mulher de um metro e oitenta,
olhos amarelados e cabelos aloirados. Uma bela mulher que podia se
transformar em um lobisomem, em questão de
poucos segundos.
Havia sido destinada, para a função de soldado, o que significava
que era infértil, mas não desprovida de desejo. Hermínia gostava
de humanos fêmeas, e havia tido mais de um relacionamento, desde que
começara a frequentar as sociedades humanas, há seis anos.
Seu trabalho era justamente controlar os criados, lobos reprodutores
e outros lobisomens, interferindo, caso a subsistência da Matilha
estivesse ameaçada. E ela sempre estava.
Aquele lobo havia cometido um crime, e Hermínia teria que fazê-lo
pagar.
E foi com esse intuito que entrou na loja de armas e comprou a
carabina.
Uma hora depois, quando estourou a cabeça do animal assassino,
Hermínia tinha o coração frio como se estivesse varrendo a sua
casa. Cavou rapidamente as três covas, dentro da reserva, e
depositou os corpos lá. Entrou no carro da Matilha, devolveu-o e
pegou um ônibus para casa.
Era tarde da noite quando desceu do ônibus e começou a atravessar
a mata que dava acesso ao cubículo onde morava. E foi somente quando
sentou no chão de cimento, ao lado do catre onde dormia, que ela
desatou a chorar.
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