quinta-feira, 21 de julho de 2016

Hermínia

 HERMÍNIA

    Hermínia chegou no cubículo enfiado na Mata Atlântica que chamava de lar, ao mesmo tempo que seu celular tocou. Era o seu único eletrodoméstico. Deixou a sua caça na entrada e atendeu, lambendo os dedos da mãos, sujos de sangue. Foi informada da missão, e conferiu os primeiros dados no aparelho. Mal daria tempo para saborear a refeição.
    Apurou os ouvidos. Passos na mata, na direção de sua casa. Sabia que vinha sendo observada há semanas, por dois homens. Sabia exatamente o que queriam, só não havia decidido como lidar com eles. Matá-los seria a opção mais óbvia, mas era contra uma das regras essenciais da Matilha. Poderia espancá-los, mas isso não garantiria que voltariam, armados. Não que armas fossem uma garantia contra Hermínia, mas tornavam as coisas, sem dúvida, mais difíceis. A Matilha recomenda expressamente a discrição, mas na situação atual, achou que um susto seria o ideal. Saiu pela pequena janela, segundos antes dos dois homens entrarem pela porta.
    Do lado de fora de sua casa, transformou-se completamente. Agora ela era um lobisomem de dois metros de altura, os pelos castanho-claros cobrindo todo o seu corpo. A transformação era rápida, e os homens ainda estavam olhando para o cubículo vazio quando Hermínia uivou pela primeira vez, com toda a força de seus pulmões expandidos.
    Os homens correram para a porta por onde haviam entrado. No chão, pela primeira vez repararam em um cadáver peludo de alguma coisa. Um macaco, provavelmente. Já estavam apavorados, quando Hermínia começou a circular a sua residência, rosnando selvagemente. A transformação embotava o seu raciocínio, e Hermínia era agora uma fera que teve seu território invadido. Os homens teriam que correr, se quisessem sobreviver.
    Foi o que fizeram. O que não impediu o lobisomem de ainda persegui-los pela mata fechada, por algumas dezenas de metros, até desistir.
    Voltou à forma humana. Ainda estava com seu vestido leve, no corpo. Havia somente descosturado em alguns pontos, devido ao aumento de tamanho. E estava suja. Caminhou alegremente até a sua casa, ouvindo os sons da mata.
    Na soleira de sua própria casa tirou o vestido e devorou o macaco rapidamente. Entrou, tomou uma ducha – coisa que detestava – colocou outra roupa, pegou o celular e saiu. Tinha uma missão.
    Hospedou-se em uma estância de águas, próximo de onde teria que verificar o que aconteceu. Uma reprodutora e seu criado não respondiam a nenhuma das tentativas de contato da Matilha. Ninguém atendia os telefones celulares, ou as chamadas de skipe. Hermínia teria que saber se era somente insubordinação do grupo – que ainda tinha um reprodutor enjaulado entre seus membros – ou se realmente havia acontecido alguma coisa grave, como com a reprodutora de Goiás, que havia enlouquecido e assassinado o seu criado e o reprodutor, suicidando-se em seguida.
    Tentou o contato por mais duas vezes por intermédio do celular e no mesmo dia, pelo entardecer, foi para a propriedade da reprodutora em questão.
    Era um sítio pequeno e isolado, cercado pelos dois lados pelos paredões de pedra típicos da região e atrás por uma reserva natural. Um bom lugar para se viver, quando se é um lobisomem. Parou o carro alugado pela Matilha na porteira e entrou. Caminhou pela única alameda cheia de barro até o que parecia ser uma casa sede. A porta estava aberta.
Dentro, a desorganização e falta de higiene típica dos lobisomens, mas com um toque a mais; ninguém parecia ter estado ali nos últimos dois dias. Farejou por todo o lado e não sentia cheiro de humanos em lugar nenhum. Era uma casa de lobos e somente deles.
    Saiu pela cozinha, em um pomar, deixado em estado quase selvagem, na direção de um pequeno galpão onde, provavelmente, estaria o reprodutor. A porta estava aberta e já nos umbrais sentiu o cheiro inconfundível de morte e sangue. Segundos depois estava olhando os restos ensanguentados de do reprodutor. Ficou de cócoras e pegou a cabeça decepada do animal. Um tiro à queima-roupa havia arrebentado o seu olho direito e saído pela parte de trás de sua cabeça dura. Ou seja, ele provavelmente estava morto quando fora devorado, e talvez seja a única forma de devorar uma animal daqueles. Olhou para o que restava do corpo. Trezentos e cinquenta quilos de músculos cobertos por uma fina pelagem amarelada. Levantou-se e continuou sua busca. Saindo do galpão, olhou por um segundo para a última edificação do lugar. Deveria funcionar como uma espécie de silo, antes de ser comprada pela Matilha. Andou dois metros e descobriu uma velha picareta. Agachou-se novamente e viu fios de cabelo, sangue e miolos nela. Andou na direção do silo e, chegando lá, abriu a porta de metal do lugar.
    Por mais que fosse ela também um lobisomem, e ainda por cima preparada para agir rapidamente em situações limites, não conseguiu conter o horror da cena que via. Um grande lobisomem, provavelmente um criado, estava de cócoras devorando os restos de uma mulher que Hermínia sabia ser a loba reprodutora.
    O lobisomem virou-se para ela e atacou, imediatamente. Mas a jovem era rápida e conseguiu sair do silo, fechando a porta de metal às suas costas. A besta jogou-se com força contra a porta, derrubando-a, e jogando Hermínia longe. A moça rolou sobre o próprio corpo e em um átimo estava de pé, corpo curvado, os dentes de lobo e garras a mostra. O lobisomem urrou para ela e voltou para o silo, para terminar sua refeição macabra.
    Hermínia, semi-transformada, foi andando de costas, olhando para a entrada escura do silo, até conseguir chegar no meio do pomar, quando virou-se sobre seus calcanhares e disparou, na direção de seu carro.
    Voltou para a pequena estância com um nó na garganta. O criado havia assassinado sua dona, a reprodutora, provavelmente com aquela picareta, enquanto os dois ainda estavam na forma humana. E depois dever ter usado um rifle para estourar a cabeça do reprodutor. Ou seja, um assassinato duplo tipicamente humano, perpetrado na forma humana, já que os lobisomens não conseguem usar ferramentas quando estão transformados, ainda mais uma ferramenta complexa como uma arma de fogo.
    Não telefonou para a Matilha. Se ligasse, diriam para tentar capturar aquele criado vivo, para ser entregue à Coisa.
A Coisa era o ser que ficava em uma caverna, em torno da qual se constituiu a Matilha. Não sabia que forma tinha a Coisa, e achava que nenhum lobo a tenha visto. Ou, pelo menos, nenhum lobo que a tenha visto sobreviveu para contar como a Coisa era, de fato. Só sabiam que Ela ficava em sua gruta, e que se jogassem lobos insubordinados na arena construída em volta dessa gruta, Ela daria cabo deles para a Matilha.
    Já a Matilha era muito mais fácil de descrever.
    Começava com um prédio, lúgubre, monumental, construído com cimento e aço, na região central do país. O prédio havia sido erigido em volta à uma arena circular, que por sua vez era o único acesso à Coisa. Nesse prédio o destino das lobas e lobos era decidido pelas Lobas Signatárias. Essas Signatárias eram Lobisomens fêmeas com mais de quinhentos anos – dizem que a Matriarca teria mais de oitocentos – que comandavam essa estrutura social, onde os machos eram ou castrados ou enfiados em jaulas para a reprodução. A maior parte das lobas também não podia ter filhos, como a própria Hermínia, mas tinham muito mais independência que os machos castrados, quase sempre destinados a serviços internos de logística ou a mera criadagem.
  A Matilha sobrevivia, como instituição, graças à venda de sangue de lobo para milionários que pudessem pagar por uma “contaminação”, como é chamada. Uma contaminação era a execução, cerimoniosa, de uma mordida de lobo em um humano. A ferida da mordida seria banhada com o sangue do próprio lobisomem autor da mordida, dando ao humano trinta anos a mais que seus pares, e gozando de saúde perfeita. Homens de cinquenta chegavam aos oitenta idênticos ao dia em que foram contaminados.
    O dinheiro da contaminação era usado para sustentar a Matilha e manter a sobrevivência dos lobos, cujo crescimento vegetativo era mínimo. As reprodutoras eram raras, os reprodutores mais raros ainda, e nos últimos anos, multiplicaram-se os casos de assassinato dentro da Matilha. Lobos sendo lobos de lobos.
    Hermínia fora criada pela Matilha, até atingir sua maturidade, aos quatro anos, quando se tornou a bela mulher de um metro e oitenta, olhos amarelados e cabelos aloirados. Uma bela mulher que podia se transformar em um lobisomem, em questão de poucos segundos.
  Havia sido destinada, para a função de soldado, o que significava que era infértil, mas não desprovida de desejo. Hermínia gostava de humanos fêmeas, e havia tido mais de um relacionamento, desde que começara a frequentar as sociedades humanas, há seis anos.
  Seu trabalho era justamente controlar os criados, lobos reprodutores e outros lobisomens, interferindo, caso a subsistência da Matilha estivesse ameaçada. E ela sempre estava.
    Aquele lobo havia cometido um crime, e Hermínia teria que fazê-lo pagar.
    E foi com esse intuito que entrou na loja de armas e comprou a carabina.
   Uma hora depois, quando estourou a cabeça do animal assassino, Hermínia tinha o coração frio como se estivesse varrendo a sua casa. Cavou rapidamente as três covas, dentro da reserva, e depositou os corpos lá. Entrou no carro da Matilha, devolveu-o e pegou um ônibus para casa.
    Era tarde da noite quando desceu do ônibus e começou a atravessar a mata que dava acesso ao cubículo onde morava. E foi somente quando sentou no chão de cimento, ao lado do catre onde dormia, que ela desatou a chorar.

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