Sempre desejei o pior para as pessoas que ficavam em lugares públicos olhando para o celular, o que equivale dizer que sempre desejei o pior para quase todas as pessoas que eu via, toda vez que era obrigada a sair de casa por um motivo qualquer.
É bem verdade que sair de casa sempre foi um motivo de desgosto para mim. Eu abandonava os meus livros, minhas plantas e meu sofá gasto - exatamente onde apoio a cabeça diminuta e minhas magras e insignificantes nádegas - e enfrentava a cidade, com toda a sua cacofonia de lixo industrial sendo esmagado, mecanismos automotivos sôfregos, e, principalmente, com o silêncio de todos aqueles idiotas olhando para o próprio telefone.
Sempre desejei o mal para aquela gente, mas nunca esperei que fosse acontecer algo como o que aconteceu.
Várias teorias foram levantadas, pelos sobreviventes. Pessoas que, como eu, não usavam o celular. Acredita-se que, só no território nacional, quase 150 milhões de pessoas acessassem os aparelhos, diariamente. Desses 150 milhões, pelo menos 50 milhões passavam o dia olhando para aquela anomalia. São muitas mortes simultâneas, para se acontecer no mesmo dia. Sem contar nos poucos assassinatos que os “possuídos” conseguiam perpetrar, antes de seus globos oculares transformarem-se em bolas de sangue e seus cérebros começarem a escorrer pelos seus ouvidos.
Eu acompanhei vários ataques, no primeiro dia. Tinha que pegar um ônibus, para voltar para casa, depois de uma visita a minha editora. Como sempre observei as pessoas olhando para o aparelho, como eu disse logo acima, não fui pega desprevenida.
Aos primeiros tremores que acometeram metade das pessoas no ponto, comecei a me afastar, cautelosamente, sem saber ao certo o porque. A cidade grande torna as pessoas muito absortas, auto-centradas, e também extenuadas demais para olhar ao redor, e ninguém mais no ponto de ônibus parecia perceber.
Aquelas seis ou sete pessoas começaram a tremer, abrindo as bocas, sincronizadamente, olhos estatelados. Quando começaram a gritar, aquele grito inumano, assemelhado a uma microfonia, os outros ficaram apalermados, olhando para as fontes do grito. Quando os olhos se tornaram bolas vermelhas, e os “possuídos” começaram a agarrar as outras pessoas no ponto, não era como se estivessem desesperadas, era como se, simplesmente, tivessem se transformado em máquinas de matar.
Vi um adolescente enfiar todo o seu braço na garganta de uma senhora, antes que ele mesmo caísse sobre ela, os olhos destruídos, o grito silenciado. Um homem atrás de mim, deveria estar consultando o seu celular enquanto andava, tentou me atacar, mas seus olhos explodiram antes que conseguisse realizar qualquer coisa. Várias pessoas no ponto correram pela rua, e foram atropeladas. Automóveis saim da pista e se jogavam contra a calçada.
Apesar de não ser mais uma garota, sempre cuidei da minha forma física, e posso correr como uma mulher de trinta, ou vinte anos. O ataque foi repentino, e acabou tão rapidamente quanto começou. Muito antes de chegar em minha casa, as pessoas já estavam contando os mortos, desesperadas. O problema foi que muitas delas continuavam usando o celular, para comunicar os acidentes e mortes, e acabaram entrando na abominável – e interminável – estatística daquele dia. E dos seguintes.
Demoraram pelo menos três dias para perceber que a loucura vinha pelo celular, o que foi suficiente para devastar quase toda a população. O restante ficou por conta dos incêndios, das pestes, da fome, do crime e de tudo o que já acontecia no pais, em larga escala e também diariamente, muito antes daquele momento fatídico.
Das teorias, a de rebelião cibernética é a que menos aceito. Mentes eletrônicas que se unem para exterminar a raça humana me parecem de um antropocentrismo intolerável. Quase como as “vinganças da natureza”, alegadas pelos iletrados, para desastres naturais. A natureza não se vinga, porque ela não o é. Ela não se sabe, nem como natureza, e, portanto, não percebe o homem como seu contrário.
Todos já sabem que a mente humana não trabalha como um computador e vice-versa. Os computadores não tem o conceito de si, e portanto, de sobrevivência. Eles funcionam, e é só. Imaginar uma alma cibernética comandando uma rebelião é tão primitivo quanto dar uma consciência para o vento, ou o oceano.
Mas foi um desastre cibernético, ocorrido por intermédio da visualização da tela do celular. Provavelmente uma frequência luminosa que, acumulada, levou, ao mesmo tempo, milhões de pessoas para a loucura e a morte. Bom, é nesse ponto que a minha teoria fica fraca.
Porque isso eclodiria em um único dia e ao mesmo tempo? Uma atualização simultânea de todos os aparelhos? Bom, isso poderia acontecer também na forma de uma grande vírus, inofensivo para os aparelhos e mortal para os humanos, por intermédio da retina. Talvez uma combinação letal de informações sonoras, guardadas no cérebro humano, somadas a uma determinada atualização-virótica. Enfim, não consigo deixar de acreditar em suicídio em massa.
Todas as consciências humanas, liquefeitas em ondas que, transmitidas, pulverizam o desejo de morte, de fim da espécie. Nossa sabedoria biológica a direcionou para os usuários do celular. Se existe uma hiper-consciência acima disso tudo, um Deus da carnificina, ele é humano, assim como o meta-humano.
O que me deixa mais certa ainda de minha teoria é o ruído. Começou logo que os sobreviventes começaram a enterrar, incinerar e devorar os corpos. Ainda existem regiões, avenidas com calçadas movimentadas, que nunca foram limpas. Junto aos corpos, os ratos, baratas e vermes tomaram a paisagem, assim com as dezenas de espécies de urubus. Nesses lugares, quando podemos passar por perto algum carro que colhemos ao acaso, o ruído é ainda mais presente.
Vem como uma estática, que turva a visão e o raciocínio. Imagino que tenha sido a última coisa que as pessoas ouviram nos últimos celulares do mundo. Com o ruído, aparecem os fantasmas, que como os sacerdotes nepalenses sempre alertaram, não passam de emanações do lado direito de nosso cérebro.
É a última e mais poderosa justificativa para a minha teoria. Se em algum momento, graças à internet, toda a tristeza, angústia e sem-sentido da sociedade moderna pudesse ser transmitida e sentida por todos os humanos que dela participassem, de uma vez, o que aconteceria a cada um deles?
Por outro lado, depois da internet, o ruído ainda continua. E os fantasmas, as emanações, mais presentes do que nunca. Minha irmã, da qual nunca gostei, está sentada ao meu lado agora, no carro. Mastiga o meu rosto enquanto dirijo. Como ela está fazendo isso há pelo menos meia hora, sei que não está aqui, com seus olhos negros e desesperados.
Nas selvas distantes, nos desertos e pequenos aglomerações isoladas da “aldeia global” duvido que a tragédia tenha acontecido. De qualquer forma, eles sempre tiveram os seus fantasmas, seus rios e ventos com vidas e sentimentos, seus monstros e mortos-vivos, rondando suas vidas dedicadas à sobrevivência. Sim, porque a vida na Natureza é a sobrevivência.
Quisemos viver, foi isso. Viver e não sobreviver sempre foi o lema da nossa hiper-civilização. Pagamos esse sonho herético com a mais abominável das mortes e o mais merecido dos esquecimentos. Não vamos deixar saudades.
RCR
É bem verdade que sair de casa sempre foi um motivo de desgosto para mim. Eu abandonava os meus livros, minhas plantas e meu sofá gasto - exatamente onde apoio a cabeça diminuta e minhas magras e insignificantes nádegas - e enfrentava a cidade, com toda a sua cacofonia de lixo industrial sendo esmagado, mecanismos automotivos sôfregos, e, principalmente, com o silêncio de todos aqueles idiotas olhando para o próprio telefone.
Sempre desejei o mal para aquela gente, mas nunca esperei que fosse acontecer algo como o que aconteceu.
Várias teorias foram levantadas, pelos sobreviventes. Pessoas que, como eu, não usavam o celular. Acredita-se que, só no território nacional, quase 150 milhões de pessoas acessassem os aparelhos, diariamente. Desses 150 milhões, pelo menos 50 milhões passavam o dia olhando para aquela anomalia. São muitas mortes simultâneas, para se acontecer no mesmo dia. Sem contar nos poucos assassinatos que os “possuídos” conseguiam perpetrar, antes de seus globos oculares transformarem-se em bolas de sangue e seus cérebros começarem a escorrer pelos seus ouvidos.
Eu acompanhei vários ataques, no primeiro dia. Tinha que pegar um ônibus, para voltar para casa, depois de uma visita a minha editora. Como sempre observei as pessoas olhando para o aparelho, como eu disse logo acima, não fui pega desprevenida.
Aos primeiros tremores que acometeram metade das pessoas no ponto, comecei a me afastar, cautelosamente, sem saber ao certo o porque. A cidade grande torna as pessoas muito absortas, auto-centradas, e também extenuadas demais para olhar ao redor, e ninguém mais no ponto de ônibus parecia perceber.
Aquelas seis ou sete pessoas começaram a tremer, abrindo as bocas, sincronizadamente, olhos estatelados. Quando começaram a gritar, aquele grito inumano, assemelhado a uma microfonia, os outros ficaram apalermados, olhando para as fontes do grito. Quando os olhos se tornaram bolas vermelhas, e os “possuídos” começaram a agarrar as outras pessoas no ponto, não era como se estivessem desesperadas, era como se, simplesmente, tivessem se transformado em máquinas de matar.
Vi um adolescente enfiar todo o seu braço na garganta de uma senhora, antes que ele mesmo caísse sobre ela, os olhos destruídos, o grito silenciado. Um homem atrás de mim, deveria estar consultando o seu celular enquanto andava, tentou me atacar, mas seus olhos explodiram antes que conseguisse realizar qualquer coisa. Várias pessoas no ponto correram pela rua, e foram atropeladas. Automóveis saim da pista e se jogavam contra a calçada.
Apesar de não ser mais uma garota, sempre cuidei da minha forma física, e posso correr como uma mulher de trinta, ou vinte anos. O ataque foi repentino, e acabou tão rapidamente quanto começou. Muito antes de chegar em minha casa, as pessoas já estavam contando os mortos, desesperadas. O problema foi que muitas delas continuavam usando o celular, para comunicar os acidentes e mortes, e acabaram entrando na abominável – e interminável – estatística daquele dia. E dos seguintes.
Demoraram pelo menos três dias para perceber que a loucura vinha pelo celular, o que foi suficiente para devastar quase toda a população. O restante ficou por conta dos incêndios, das pestes, da fome, do crime e de tudo o que já acontecia no pais, em larga escala e também diariamente, muito antes daquele momento fatídico.
Das teorias, a de rebelião cibernética é a que menos aceito. Mentes eletrônicas que se unem para exterminar a raça humana me parecem de um antropocentrismo intolerável. Quase como as “vinganças da natureza”, alegadas pelos iletrados, para desastres naturais. A natureza não se vinga, porque ela não o é. Ela não se sabe, nem como natureza, e, portanto, não percebe o homem como seu contrário.
Todos já sabem que a mente humana não trabalha como um computador e vice-versa. Os computadores não tem o conceito de si, e portanto, de sobrevivência. Eles funcionam, e é só. Imaginar uma alma cibernética comandando uma rebelião é tão primitivo quanto dar uma consciência para o vento, ou o oceano.
Mas foi um desastre cibernético, ocorrido por intermédio da visualização da tela do celular. Provavelmente uma frequência luminosa que, acumulada, levou, ao mesmo tempo, milhões de pessoas para a loucura e a morte. Bom, é nesse ponto que a minha teoria fica fraca.
Porque isso eclodiria em um único dia e ao mesmo tempo? Uma atualização simultânea de todos os aparelhos? Bom, isso poderia acontecer também na forma de uma grande vírus, inofensivo para os aparelhos e mortal para os humanos, por intermédio da retina. Talvez uma combinação letal de informações sonoras, guardadas no cérebro humano, somadas a uma determinada atualização-virótica. Enfim, não consigo deixar de acreditar em suicídio em massa.
Todas as consciências humanas, liquefeitas em ondas que, transmitidas, pulverizam o desejo de morte, de fim da espécie. Nossa sabedoria biológica a direcionou para os usuários do celular. Se existe uma hiper-consciência acima disso tudo, um Deus da carnificina, ele é humano, assim como o meta-humano.
O que me deixa mais certa ainda de minha teoria é o ruído. Começou logo que os sobreviventes começaram a enterrar, incinerar e devorar os corpos. Ainda existem regiões, avenidas com calçadas movimentadas, que nunca foram limpas. Junto aos corpos, os ratos, baratas e vermes tomaram a paisagem, assim com as dezenas de espécies de urubus. Nesses lugares, quando podemos passar por perto algum carro que colhemos ao acaso, o ruído é ainda mais presente.
Vem como uma estática, que turva a visão e o raciocínio. Imagino que tenha sido a última coisa que as pessoas ouviram nos últimos celulares do mundo. Com o ruído, aparecem os fantasmas, que como os sacerdotes nepalenses sempre alertaram, não passam de emanações do lado direito de nosso cérebro.
É a última e mais poderosa justificativa para a minha teoria. Se em algum momento, graças à internet, toda a tristeza, angústia e sem-sentido da sociedade moderna pudesse ser transmitida e sentida por todos os humanos que dela participassem, de uma vez, o que aconteceria a cada um deles?
Por outro lado, depois da internet, o ruído ainda continua. E os fantasmas, as emanações, mais presentes do que nunca. Minha irmã, da qual nunca gostei, está sentada ao meu lado agora, no carro. Mastiga o meu rosto enquanto dirijo. Como ela está fazendo isso há pelo menos meia hora, sei que não está aqui, com seus olhos negros e desesperados.
Nas selvas distantes, nos desertos e pequenos aglomerações isoladas da “aldeia global” duvido que a tragédia tenha acontecido. De qualquer forma, eles sempre tiveram os seus fantasmas, seus rios e ventos com vidas e sentimentos, seus monstros e mortos-vivos, rondando suas vidas dedicadas à sobrevivência. Sim, porque a vida na Natureza é a sobrevivência.
Quisemos viver, foi isso. Viver e não sobreviver sempre foi o lema da nossa hiper-civilização. Pagamos esse sonho herético com a mais abominável das mortes e o mais merecido dos esquecimentos. Não vamos deixar saudades.
RCR
A não consciência da natureza é algo que eu nunca tinha pensado, sempre achei que o Tsunami, a catapora e os borrachudos fossem vingança da natureza! Cadê o próximo?
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